Marielle, presente! Marielle, presente!

Diversos, Notícias, Tribuna Livre | 23 de março de 2018

14/03/2018, 21h30. Bandidos emparelharam o veículo onde estava a vereadora do Rio, Marielle Franco (PSOL). O automóvel foi alvo de 13 tiros, quatro dos quais atingiram a cabeça da parlamentar. Outros três atingiram as costas de seu motorista, Anderson Pedro Gomes. Ambos morreram na hora. 

A execução de Marielle Franco comoveu o País, levou milhares de pessoas às ruas e ganhou repercussão internacional. Chama a atenção pela violência, mas também por tudo que a vereadora representava: mulher, negra, homossexual, mãe, nascida na Favela da Maré e a quinta vereadora mais votada no Rio de Janeiro. Marielle denunciava as arbitrariedades das polícias, especialmente contra a população pobre e negra, e integrava a comissão criada da Câmara do Rio para monitorar os trabalhos da atual intervenção militar.

Por tudo isso, a morte da vereadora tem sido tratada como um crime político. Segundo o professor universitário e membro do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais, da Comissão da Verdade/MG e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Robson Sávio, a morte de Marielle veio como um recado. “É um recado muito claro para todos os segmentos relacionados aos movimentos sociais e populares, segmentos na luta contra as arbitrariedades policiais nas periferias, e aos grupos organizados e coletivos de mulheres e de negros que têm sido uma voz de resistência nesse momento que o Brasil passa”.

O professor explicou que é um recado que tem como remetente o conservadorismo, que tinha em Marielle a representação de tudo aquilo contra o qual luta. Robson pontua ainda que o assassinato de Marielle serve muito bem ao discurso atual em defesa da violência e já está sendo tomado pela mídia e por grupos de interesse. “Tudo faz parte de uma estratégia de grupos de extrema direita, hoje muito fortes no Brasil, que através do medo disseminam a insegurança e justificam o recrudescimento da violência. Na tentativa de se combater a violência, recorre-se a mais força e violência”.

A opinião é compartilhada pela assistente social e militante de movimentos negros em Belo Horizonte, Andréia Roseno. “Essa execução está intrinsecamente ligada à pauta do genocídio da população negra no Brasil, sobretudo a juventude. Também está ligada à violência contra a mulher. Marielle era uma figura política ligada a essas duas questões e que agora entra para as estatísticas do feminicídio e do genocídio”.

Ela acredita ainda que a execução da vereadora tenha relação com o momento político que o País vive. “Não deixa de ser algo que está ligado à situação conjuntural que nós vivemos, com o golpe que está em curso. Um golpe de cunho racista, machista e que está ligado ao interesse do capital internacional”.

Andreia lembra que Marielle participava das mesmas comissões que o atual deputado Marcelo Freixo (PSOL) participou durante o período em que foi vereador no Rio. “No entanto, Freixo foi ameaçado e com ela não teve sequer ameaça ou conversa. Ela foi brutalmente assassinada, o que demonstra o quanto de intolerância e racismo tem numa ação dessa”.

E o que fica depois de tudo isso? Andreia responde: “o que fica pra nós é o fato de que precisamos nos cuidar, um cuidado coletivo. Precisamos estar atentos porque estamos vivendo um tempo sem sol, como dizia o poeta. E nesses tempos, de aumento do facismo, xenofobia e conservadorismo, a população pobre, negra, favelada e as mulheres ficam em situação vulnerável”. Ela conclui dizendo que agora é preciso um projeto político para fazer frente a toda essa violência generalizada contra o povo brasileiro.

“Precisamos de uma reação. Eu estou cansada de expor minhas dores em praça pública, dizer o quanto o racismo me atravessa, o quanto eu sou machucada pelo racismo, o quanto que esse racismo me põe numa posição de solidão, o quanto que ele me põe numa posição desfavorável no mercado de trabalho e no quanto ele não se importa com a vida dos meus e das minhas. E eu estou cansada desse processo. Precisamos construir uma unidade, um projeto de sociedade”.

Marielle, presente!