Editorial: Lucro acima de tudo, lama acima de todos Editorial: Lucro acima de tudo, lama acima de todos

Opinião | 1 de fevereiro de 2019

A dor e a revolta diante de uma grande tragédia uniu um Brasil dividido. Hoje, choramos juntos por Brumadinho: pelas vítimas, por suas famílias, pelas comunidades atingidas e pelo meio ambiente devastado. Mas, afinal, é legítimo politizarmos um momento tão sensível?

Tudo o que as grandes mineradoras não querem é que politizemos essa tragédia. Tudo o que o Deus Mercado não quer é que questionemos o modelo de desenvolvimento privatista imposto ao Brasil e à Minas Gerais. Tudo o que os grandes capitalistas não querem é que tratemos esse evento como um crime, e não como um mero acidente.

A Vale, privatizada, tem como prioridade o lucro máximo e em curto prazo para seus acionistas (na maioria, estrangeiros). Para além da responsabilidade individual de funcionários e diretores da mineradora no rompimento dessa barragem, é preciso denunciar a causa base desse crime: a lógica privatista da gestão dessas empresas.

Nós, petroleiras e petroleiros, somos solidários aos trabalhadores e familiares vítimas desse crime tão cruel. Nós, que também convivemos diariamente com uma atividade de alto risco, sabemos bem como o descaso da gestão da empresa e o compromisso inadiável com o lucro podem colocar a vida de milhares em risco.

As semelhanças, infelizmente, não param por aí. De uma importante empresa pública para uma empresa privatizada a preço de banana, a trajetória da Vale seguiu o mesmo roteiro privatista imposto a outras estatais: deixar de ter como foco o desenvolvimento do País e passar a se preocupar apenas com o lucro imediato (dos outros).

Portanto, mesmo diante de tanto sofrimento, não podemos perder essa oportunidade de reflexão da sociedade brasileira. Precisamos politizar o debate em torno do crime de Brumadinho, não somente para que não tenhamos mais mortes, mas também para que não transformem a Petrobrás numa nova Vale.