Petroleiras se reúnem no Sindipetro/MG para debater desafios Petroleiras se reúnem no Sindipetro/MG para debater desafios

Diversos, Notícias, Tribuna Livre | 22 de março de 2019

Operadoras da Refinaria Gabriel Passos (Regap) se reuniram na noite dessa quinta-feira (21) no II Encontro de Mulheres Petroleiras de Minas Gerais, realizado pelo Sindipetro/MG. O evento foi conduzido pela diretora Márcia Lima Nazaré e contou com a participação de quatro trabalhadoras do turno, além das convidadas Larissa Costa, jornalista do Brasil de Fato e representante da Consulta Popular e Andressa Delbons, técnica de operação da Reduc (Refinaria Duque de Caxias) e coordenadora do Coletivo de Mulheres da FUP (Federação Única dos Petroleiros).

O Encontro teve início com uma apresentação de todas as participantes, que contaram um pouco sobre suas experiências no trabalho, com a maternidade, com as duplas ou triplas jornadas e também com o machismo, especialmente dentro da Petrobrás. Na sequência, a jornalista Larissa Costa aproveitou os relatos apresentados – quase todos marcados de certa forma pela violência contra a mulher – para questionar o por quê isso é tão presente na vida de todas. “Precisamos nos perguntar por que as coisas se dão assim para que isso não seja naturalizado pois não é natural. O que somos hoje na sociedade nada mais é do que uma construção social. Não foi sempre assim, a sociedade nem sempre foi capitalista, racista e patriarcal como a conhecemos hoje. E, se não foi sempre assim e é resultado de uma construção, significa que é possível desconstruir ou destruir esse modelo”.

Ela trouxe ainda um panorama histórico da importância da organização e resistência das mulheres nas principais mudanças estruturais em todas as sociedades, relembrando a luta das sufragistas no século XIX, a organização das mulheres nos partidos socialistas da Europa em torno de melhores condições de trabalho e redução da miséria, a mobilização feminina dos anos 70 e 80 pelo direito ao corpo e à sexualidade. Além disso, ela destacou todo o legado que essas mulheres que vieram antes deixaram, inclusive aqui no Brasil, como as políticas de combate à violência doméstica, o direito ao divórcio, entre muitos outros direitos e conquistas.

“Enquanto houve patriarcado (homem no centro do poder), houve resistência de mulheres. Então, se estamos aqui discutindo novas formas de educar nossos filhos para que não sejam machistas ou se estamos nos organizando em um sindicato, isso é resultado de uma conquista cumulativa das mulheres que vieram antes de nós. Falar da história das mulheres é falar da resistência coletiva e individual contra o patriarcado, afinal, até muito pouco tempo as mulheres não podiam votar, não sabiam ler ou escrever e eram propriedade de seus maridos ou pais”.

Além de destacar a força das mulheres ao longo da história, Larissa Costa também pontuou os desafios colocados hoje para as mulheres em um contexto mais amplo, como a Reforma Trabalhista e os retrocessos nas áreas da saúde e da educação. “Temos uma onda crescente de mobilizações sociais de mulheres e nossa organização é imprescindível no processo de construção do novo, seja um novo governo ou uma nova forma de organização da sociedade”.

Organização de trabalhadoras

Na sequência, a coordenadora do Coletivo de Mulheres da FUP, Andressa Delbons, destacou os desafios da mulher petroleira hoje, seja quanto ameaça crescente de privatização da Petrobrás seja nos ataques direcionados aos sindicatos e às formas de organização dos trabalhadores. “Estamos sob ataque desde o golpe. Primeiro, tivemos a Reforma Trabalhista que, de certa forma foi também uma reforma sindical, e agora temos a Medida Provisória 873, que suspende os descontos das contribuições sindicais em folha de pagamento. Tudo isso são tentativas de silenciar os trabalhadores”.

Ela então relembrou a criação do Coletivo, a partir de uma necessidade das mulheres de representação junto às negociações salariais e relativas aos direitos trabalhistas das mulheres. “A partir do Congresso da FUP em 2011, as mulheres começaram a se perguntar por que não haviam diretoras nos sindicatos e na Federação e, então, começaram a se organizar pois, no movimento sindical, se você não tem representatividade você não tem nada. Nós estávamos nas refinarias, nas plataformas, nos escritórios, mas não tínhamos ninguém nos representando na luta por nossos direitos”.

E, dois anos após a criação do Coletivo, as representantes das petroleiras conseguiram uma reunião com a presidenta da Petrobrás, que na época era a Graça Foster. A partir daí, elas conquistaram a extensão das licenças maternidade e paternidade, a garantia da família em casos de transferência de trabalhadores casados, a redução de jornada para o aleitamento, a disponibilização de salas de amamentação nas unidades da empresa para as lactantes, entre outros direitos. “O que temos feito ao longo desse anos foi graças à nossa organização e ao fato de vocês estarem aqui, fazendo parte dessa construção”, ressaltou às petroleiras presentes.

Machismo

Um tema chave tratado no Encontro e que faz parte da estrutura do patriarcado, como explicou Larissa Costa, foi o machismo. Segundo as petroleiras, ele mudou de forma mas ainda é muito presente na refinaria, especialmente entre as operadoras que trabalham de turno e na área – alvos constantes de comentários ou piadas por parte dos colegas.

Um exemplo antigo mas recorrentemente relatado pelas trabalhadoras pelo fato de ter sido marcante foi um episódio em que um trabalhador responsável por receber estudantes que visitavam a Regap teria afirmado que, o maior “tiro no pé” dado pela Petrobrás foi aceitar mulheres na operação das unidades pois elas correspondiam a “meias operadoras”. Outro argumento muito usado no passado era relacionado à força física das mulheres que seria menor em relação aos homens, embora o concurso da estatal não exija teste de força.

Hoje em dia, segundo as petroleiras presentes, o machismo é mais velado mas ainda é constante. Nunca passa-se despercebida a situação de terem duas ou mais mulheres trabalhando juntas ou operando os painéis. Também há questionamentos sobre o comprometimento da mulher, especialmente em relação às petroleiras que têm filhos, como se após a maternidade elas fossem preteridas a assumirem determinadas funções pelo fato de serem mães.

Amamentação

Outro ponto que surgiu no debate foi o direito à redução da jornada de trabalho para amamentação, garantido pelo Acordo Coletivo de Trabalho (ACT) das petroleiras. Segundo as trabalhadoras, a empresa não respeita esse direito em relação às operadoras de turno que, geralmente, acabam deslocadas ao regime administrativo durante o período de amamentação e perdem alguns benefícios, entre eles adicionais e transporte.

Encontro Nacional de Petroleiras 

Ao final da reunião, Andressa Delbons reforçou o convite para que as mulheres participem do 7° Encontro Nacional das Mulheres Petroleiras da FUP, que acontecerá nos dias 5, 6 e 7 de abril em Vitória (ES). As inscrições já estão abertas e podem ser feitas até o dia 30 de março, mas as vagas são limitadas.

A petroleiras de Minas que tiveram interesse em participar podem entrar em contato com qualquer diretor ou diretamente na secretaria do Sindipetro/MG (2515-5555) para informar seus dados pessoais. O Sindicato arcará com todas as despesas da viagem. Saiba mais sobre a programação.

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Texto: Thaís Mota