Quais são os desafios enfrentados pelas mulheres petroleiras? Quais são os desafios enfrentados pelas mulheres petroleiras?

Diversos, Notícias, Tribuna Livre | 22 de março de 2019

Não é fácil ser mulher. Todos os dias ouvimos isso por aí. Mas, hoje, a reflexão sobre esse tema virá a partir do lugar de fala das petroleiras. Afinal, o que é ser petroleira e quais são os desafios de uma mulher dentro da Petrobrás? Quais os desafios do trabalho de turno ou de se trabalhar em um ambiente ainda tão masculinizado (atualmente, apenas 16,6% dos trabalhadores da Petrobrás são mulheres, sendo ainda menor na operação)?

Um dos aspectos levantados pelas trabalhadoras ouvidas pelo Sindipetro/MG – e que apareceu com certo nível de recorrência – é a questão do machismo, ainda muito presente nas unidades operacionais. “Hoje há um machismo diferente e talvez mais complexo e velado do que o vivido pelas primeiras mulheres na operação”, afirma a operadora da Regap, Vanessa Serbate, de 29 anos.

Segundo ela, antigamente, “os homens achavam que a gente não era capaz ou não tinha força física suficiente. Mas, hoje, os homens já aceitam que somos capaz de fazer, mas temos de suportar comentários que, a todo tempo, questionam as características da mulher. Então, se eu falo de forma doce, é porque quero algo. Se falo de maneira ríspida é porque sou mandona e autoritária. Uma análise que nunca é feita sobre a postura do homem”, diz.

Já a também operadora da Regap, Carolina Paularie, de 39 anos, contou um pouco sobre como o trabalho e a renda da mulher são, muitas vezes, desqualificados. “O que percebo muito é que as mulheres que trabalham na refinaria têm uma participação importante em termos de orçamento familiar. Mas, eu já passei por situações em que nossos colegas olham para o nosso trabalho como se ele fosse algo secundário quando, na verdade, ele é tão importante quanto a renda que eles, os homens, proporcionam para suas famílias. Então, é necessário compreender a importância do trabalho feminino e sua equivalência ao trabalho do homem”, disse.

Ela relatou ainda uma experiência pessoal e que foi muito marcante em sua vida. “Meu ex-marido também era funcionário da Petrobrás e, na época em que éramos casados, me era colocado que eu não precisava do turno porque meu marido já trabalhava de turno. Hoje, nem sou mais casada. Agora, imagina se eu tivesse aberto mão da minha profissão em função disso?”

Trabalho de turno

Sobre o trabalho de turno – realidade das mulheres que trabalham na operação da Regap, Termelétrica Aureliano Chaves e Usina de Biodiesel Darcy Ribeiro – as petroleiras relatam prós e contras.

Um dos aspectos levantados é a possibilidade de acompanhar filhos em consultas médicas ou participar de reuniões escolares – o que é dificultado às mulheres que trabalham em regime administrativo. “Prefiro o turno por isso e também porque quando estou no zero hora, para o meu filho é como se eu não tivesse trabalhado, e quando estou de 16h à meia-noite fico distante dele por um curto período de tempo porque quando saio ele está na escola e ele dorme cedo”, disse Vanessa, que está grávida de 4 meses e é mãe de um menino de três anos.

Já a operadora da Usina Termelétrica Aureliano Chaves, Ilnara Santos, de 30 anos, conta que a volta ao turno, após um período em regime administrativo depois do fim da licença maternidade, foi um desafio. Os horários pouco convencionais acabam demandando ajuda extra nos cuidados com o filho, hoje com um 1 ano e 4 meses. “As vezes, eu preciso contar com uma terceira pessoa. Durante o dia tenho uma babá e a noite tem meu marido, mas as vezes quando estou no H3 ou zero hora ainda preciso contar com minha mãe”, afirma.

Por outro lado, o regime de turno também impõe o trabalho, muitas vezes, aos domingos e feriados. “A gente não consegue estar com nossos filhos nos horários em que eles estão fora da rotina, como nos feriados, finais de semana e, as vezes, à noite também. Isso afasta um pouco a gente de nos manter mais próximos deles”, disse Carolina, que é mãe de uma adolescente de 16 anos e um menino de 9.

Inclusive, em caso de dobras, elas ficam fora por até 16 horas – o que impacta na rotina de toda a família.Na última greve dos petroleiros de Minas, por exemplo, Vanessa foi retida na empresa e só deixou a refinaria após 40 horas de trabalho, fato grave denunciado na época pelo Sindipetro/MG. E, no último dia da paralisação, que juntamente com a greve dos caminhoneiros derrubou o então presidente da Petrobrás, Pedro Parente, Vanessa foi para a porta da Regap protestar com o filho no colo.

Múltiplas jornadas

Outro aspecto que não se restringe apenas às petroleiras e que ainda é algo bastante estrutural em nossa sociedade são os inúmeros papéis desempenhados pela mulher. Ainda ficam a cargo das mulheres os cuidados com a casa, os filhos e, em alguns casos, os pais ou sogros muitas vezes já idosos ou doentes. Algumas acumulam ainda o estudo, como é o caso de Vanessa, que faz mestrado em Engenharia Civil.

Apesar de se sentir privilegiada por contar com o marido nos cuidados com o filho e com a casa (que optou por trabalhar em casa para poder cuidar do filho do casal), coincidentemente no momento da entrevista, Vanessa estava dando de jantar ao filho pois, justamente nesta semana, o marido estava viajando a trabalho. O caso é parecido com o da Ilnara, que conta que o marido também é um pai muito presente. No entanto, ainda assim são muitas as tarefas assumidas pelas mulheres, especialmente as que são mãe. “A mãe trabalhadora precisa de muito apoio e ajuda e poder ter confiança nas pessoas com quem vamos deixar nossos filhos é um privilégio”, relata a operadora da Termelétrica.

Esse é apenas um exemplo do acúmulo de funções pelas mulheres e que, em grande parte, contribui para comprometer a saúde da mulher. Um estudo publicado em 2017 pela Universidade Nacional da Austrália revelou que a mulher dedica em média 4,5 horas diárias às tarefas do lar, enquanto os homens contribuem com menos da metade desse tempo. Com isso, o estudo conclui que as mulheres deveriam trabalhar menos horas por semana em seus empregos.