Setembro Amarelo: problema seu, problema meu Setembro Amarelo: problema seu, problema meu

Diversos, Notícias, Tribuna Livre | 27 de setembro de 2019

Alteridade é uma palavra bonita que vemos nos livros ou em artigos científicos, mas não nos parece parte da rotina diária. Talvez seja porque não é: na semântica e na prática, ainda sintonizamos na frequência do egoísmo em situações cotidianas. O grito no trânsito, o individualismo das opiniões, o sabor impune das ofensas online: estamos, a todo tempo, focados no eu e no meu.

Daí as competições no trabalho, os atritos familiares que parecem indissolúveis e os sonhos que se tornam inalcançáveis; afinal de contas, o conflito e o compasso nascem da troca. Ninguém constrói – nem destrói – nada sozinho.

Nessa visão inóspita da vida, estagnamos num terrível paradoxo: estamos cercados e extremamente solitários. Não à toa, a depressão, considerada a doença do século, assola 11 milhões de brasileiros, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). E dela nascem diversos desdobramentos ainda mais problemáticos, entre eles, o suicídio.

De acordo com a pesquisa da OMS, a cada 45 minutos uma pessoa se suicida no País. O suicídio ocupa o terceiro lugar nas principais causas de morte no Brasil, ficando atrás apenas de violência interpessoal, em segundo lugar, e acidentes de trânsito, na liderança.

Isso quer dizer que não estamos apenas lutando com o acaso e contra os outros; estamos lutando para saber lidar com nós mesmos. Mas quando essa batalha interna se torna perigosa para a própria vida? Como dizer qual é a motivação de um suicida? Não existe apenas uma resposta. Os miasmas da sociedade, como os conceitos irreais e inalcançáveis propostos pelo patriarcado e os pilares virtuais que versam sobre o sucesso e o sentimento de vitória estão no balaio.

Some a isso também as desigualdades socioeconômicas, tabus, traumas não tratados e conceitos novos, mas muito presentes em nossa vida, como a Síndrome de Burnout (esgotamento físico e mental proveniente de rotina exaustiva de trabalho) e o FoMo – Fear of missing out (medo de ficar por fora, em tradução livre). Num mundo extremamente globalizado e pautado por interações constantes e ininterruptas, os anseios e temores também se transformaram.

No trabalho, as ameaças constantes à estabilidade, culturas organizacionais que não primam pelo respeito e senso de comunidade, submissão a chefias autoritárias, exposição ao assédio moral e a exigência de produtividade absurda são alguns dos motivos pelos quais uma pessoa pode resolver dar cabo de sua existência.

QUAIS SÃO OS SINTOMAS?

A morte, em si, é tabu em nossa sociedade. Gera sofrimento e sensação de derrota – mesmo sendo a única certeza irreversível da vida. A indução a algo tão nebuloso, então, é ainda mais difícil de se colocar em pauta, pois passa por julgamentos sobre escolhas e crenças pessoais. No entanto, ao não falarmos sobre suicídio, o problema infesta as mentes de forma silenciosa e desimpedida. Por isso, é importante estar atento aos sintomas para poder ajudar o mais rápido possível.

De acordo com o portal do Ministério da Saúde do Brasil, fique atento se:

· A pessoa demonstra desesperança ou uma visão muito pessimista e desolada sobre a vida;
· Se ela apresenta mudanças bruscas de humor sem motivos aparentes;
· Se diz frases como “nada faz sentido” ou “quero morrer”. Pode parecer despropósito, mas muitas pessoas avisam de suas intenções;
· Se apresenta comportamento autodestrutivo, como o abuso de drogas e outras substâncias.

Lembre-se de também ficar atento em momentos pontuais, como perda de familiares ou outros fases traumáticas que podem desencadear crises.

PERCEBI UM PROBLEMA. COMO POSSO AJUDAR?

Antes de mais nada, é importante lembrar que apenas um profissional da saúde pode tratar uma pessoa com tendências suicidas. Portanto, sua melhor dica é orientá-la a procurar auxílio especializado. Mas você pode ajudar na descoberta do problema: lembra daquela palavra lá em cima? É sua vez de colocá-la em prática. Não é difícil: permitir que as pessoas desabafem sobre seus sentimentos, sem imputar críticas e julgamentos, já é de grande valia.

No livro Comunicação Não-Violenta, o psicólogo Marshall B. Rosenberg explica que ouvir com empatia produz grandes resultados. Nem sempre alguém que está com problemas procura por soluções rápidas – essa prática pode induzir o outro a se sentir menosprezado em relação às suas mazelas.

Ofereça a escuta ativa, sem interromper, e tente entender o assunto. Muitas vezes, apenas falar e se sentir compreendido pode acalmar alguém que esteja pensando em algo pior. Ao final do desabafo, sugira, respeitosamente, que a pessoa procure ajuda especializada.

COMO PREVENIR SITUAÇÕES COMO ESTA NO TRABALHO?

Todos podemos fazer nossa parte para uma mudança estrutural. Pequenas atitudes cotidianas podem promover transformações: Ser uma pessoa que não persegue, cria intrigas ou boatos sobre os outros; não expor, tentar constranger ou humilhar colegas; incentivar a promoção de respeito à diversidade em todos os ambientes nos quais você está presente; não tratar ninguém como um fardo, lembrando que a todos é reservado o direito de existir; estar aberto para acolher as diferenças e ter paciência com as particularidades de cada um; dar ao outro espaço para ser quem é, sem tentar incutir seu modo de viver.

Ou seja: ser altero. E o que, afinal, significa essa palavra? Alteridade, ou outridade, nada mais é do que a condição do outro. Logo, praticar a alteridade é entrar em contato com o outro, exercitando a empatia e a compreensão. É um esforço para entender hábitos, diferenças e experiências que não condizem com a sua, mas fazem parte do tecido social e precisam ser incorporadas. Ser altero não é tão difícil assim: todos os dias somos convidados a transcender o óbvio e a individualidade e olhar um pouco para o próximo.

Afinal, como canta Arnaldo Antunes, sou “semelhante de você e diferente de você”. No Setembro Amarelo, esse convite é reiterado: Se veja no outro. Não mais como outrora; outrossim, saber que o outro tem muito de si mesmo. E todos temos o direito de viver a vida da melhor maneira possível.