Mudança em planejamento estratégico coloca Petrobrás na contramão da visão de grandes empresas do setor Mudança em planejamento estratégico coloca Petrobrás na contramão da visão de grandes empresas do setor

Diversos, Notícias, Tribuna Livre | 3 de outubro de 2019

Plataforma petrolífera P-52 no campo de Roncador, da Bacia de Campos.

Contrariando uma tendência mundial entre as grandes empresas de petróleo do mundo, a Petrobrás deu mais um passo rumo à saída de estatal do mercado de energias renováveis. O Conselho Administrativo aprovou na última semana uma mudança no posicionamento estratégico da empresa para o plano 2020-2024 que prevê, entre outras coisas, a saída integral dos negócios de fertilizantes e biodiesel e também de distribuição e transporte de gás.

Essa mudança faz parte de uma estratégia adotada pela gestão da empresa de Pedro Parente e agora retomada pelo atual presidente da companhia, Roberto Castello Branco, que consiste na redução da relação dívida x Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da empresa a qualquer custo. Entretanto, diversas análises produzidas pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep) já demonstraram como o endividamento faz parte da trajetória de qualquer petrolífera e pode ser reduzido sem comprometimento da Petrobrás enquanto empresa integrada de energia.

“A Petrobrás trabalha com uma redução abrupta da relação dívida/Ebitda em um cenário de preço baixo do barril do petróleo. Ou seja, nesse caso, a única alternativa para alcançar essa meta seria a venda indiscriminada de ativos, mas, a longo prazo, isso pode acabar prejudicando a capacidade de geração de caixa da empresa”, explica o diretor do Ineep, Rodrigo Leão.

A partir dessa mudança, a Petrobrás concentra sua atuação na área de exploração e produção de petróleo, deixando de ser uma empresa integrada de energia. “As empresas de petróleo de grande porte têm uma atuação profundamente integrada e diversificada por um conjunto extenso de razões que vão de questões geopolíticas até características intrínsecas ao setor petróleo”, afirmou Rodrigo Leão.

Ele explica ainda que a diversificação é importante, por exemplo, para que:
i) nenhuma empresa fique refém da exploração e produção, ou seja, não estruture um negócio cuja rentabilidade dependa exclusivamente dos preços do barril de petróleo no mercado internacional;
ii) evite-se a dependência de importações de combustíveis de outros países.

Isso porque permite a integração uma maior capacidade de diminuição dos impactos provocados por movimentos de mercado (oferta e demanda) e preços do setor de exploração e produção, além de ter uma profunda relação com as mudanças da matriz energética global. “Todas as empresas sabem do movimento internacional de busca por uma transição energética e, por isso, têm estruturado negócios cada vez mais diversificados não apenas na cadeia parapetrolífera, como também em outras formas de energia”, completou.

Em nota divulgada à imprensa, presidente da Petrobrás afirma que a mudança no planejamento estratégico visa principalmente a geração de valor para o acionista, ou seja, aumento dos lucros ainda que ao custo da desintegração da Petrobrás, da perda da soberania nacional e/ou do aumento dos preços dos combustíveis no Brasil.

“Estamos construindo a nova Petrobrás, uma empresa sustentável, competitiva, que atua com segurança e ética, gerando mais valor para seus acionistas e para a sociedade. Seremos uma companhia dedicada à exploração e produção de petróleo em águas profundas, menos endividada. Esta nova Petrobras agrega, desde já, a transformação digital como uma poderosa alavanca para a realização de ganhos de produtividade e redução de custos”, disse Castello Branco.

Na avaliação do diretor do Sindipetro/MG, Felipe Pinheiro, as justificativas apresentadas pela direção da empresa para a privatização são falsas e os verdadeiros motivos para a entrega da estatal são políticos. “A atual gestão da Petrobrás e o governo Bolsonaro seguem tentando justificar o injustificável. Mesmo com a empresa registrando lucro e conseguindo reduzir sua dívida, Castello Branco e Paulo Guedes [ministro da Economia no governo Bolsonaro] repetem a falácia da necessidade de privatização da empresa. Não se trata de uma decisão técnica, mas sim de uma entrega do patrimônio público por motivos ideológicos. Nós seguiremos lutando contra esse desmonte criminoso, que coloca em risco o futuro e o desenvolvimento do nosso País”.

Fonte: Sindipetro/MG