Petrobras e a pandemia do novo coronavírus Petrobras e a pandemia do novo coronavírus

Notícias, Opinião | 14 de maio de 2020

A Petrobras anunciou, no último dia 7 de maio, uma ajuda de três milhões de litros de combustíveis para abastecer ambulâncias e hospitais de campanha em todo o Brasil. A ação, num primeiro momento, parece uma doação extraordinária, contudo, esse volume diz respeito a praticamente um dia de produção de uma unidade de Diesel. A Refinaria Gabriel Passos (Regap), por exemplo, localizada em Betim (Minas Gerais), tem duas destas unidades e é uma das treze refinarias da Petrobras. Apenas esse dado nos mostra não só tamanho da Estatal, mas, principalmente, a importância da Empresa e o que poderia ser feito se ela fosse administrada para benefício do povo brasileiro.

Se a Petrobras tivesse uma política diferente de preços, que não fosse atrelada ao barril internacional (ainda condicionado pelo valor do dólar) etc., ela agiria mais de acordo com os interesses dos consumidores que, em teoria, são os donos majoritários da Estatal, já que ela ainda é da nação brasileira. Só para citar um exemplo concreto, uma recente parceria entre a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Petrobras possibilitou a redução de 90% do custo de fabricação de respiradouros, necessários aos internados por Covid-19.

Outro exemplo foi o projeto chamado MOVA Brasil, executado entre os anos de 2003 a 2013. Esta parceria entre a Federação Única dos Petroleiros (FUP), Petrobras e o Instituto Paulo Freire levou a alfabetização de 200 mil pessoas, entre jovens e adultos, em 10 estados brasileiros, abrangendo 200 municípios.

Este tipo de informação é ocultada da população, propositalmente, pois a desinformação em torno do que faz, da quantidade que produz e da importância desta produção para a vida dos brasileiros faz com que não percebamos o perigo da entrega da Petrobras aos grupos privados, como aconteceu com a Vale do Rio Doce, por exemplo. Se o povo soubesse o que a Estatal pode fazer pelo País, governo nenhum ousaria destruí-la ou prejudicá-la, como vem ocorrendo.

Preço do barril de petróleo cai, mas o da gasolina e do gás de cozinha, não

Privatizar a Petrobras trará impacto maior na vida das pessoas em tempos de crise, como as que vemos acontecer atualmente como o novo coronavírus e crise do petróleo, envolvendo a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e as nações imperialistas.

A redução do consumo de diesel e gasolina, por causa do isolamento social, levou a uma redução de consumo do petróleo. Essa redução força as refinarias a potencializarem, neste momento, a produção de GLP, gás liquefeito de petróleo, mais conhecido como gás de cozinha. Tal recurso ocorre para não desabastecer o mercado, o que poderia agravar ainda mais a crise.

No mês passado, o governo Bolsonaro anunciou uma importação adicional do GLP, o que encare o produto. Tal importação poderia ser evitada se o governo revisse sua política de manter desativada unidades de refinaria como a U-6, pertencente à Refinaria Landulpho Alves, localizada em São Francisco do Conde, na Bahia. O que estamos vendo é a Estatal importar um produto que poderia está sendo produzindo aqui, a custo menor, e é justamente esta questão que deve ser levantada e esclarecida: se o gás de cozinha pode ser produzido no Brasil, aumentando a produção nas refinarias e reduzindo também o preço para os consumidores, por que não é feito?

Outro exemplo emblemático diz respeito à compra da gasolina no mercado internacional. Até o mês passado, importávamos gasolina dos EUA, “parceiros” ativos quando se trata de nos explorar, vide o caso dos EPIs e equipamentos médicos comprados pelo Brasil, mas que foram confiscados pelo governo estadunidense. A importação da gasolina prejudica nossa balança comercial e ela poderia ser toda produzida no País, assim como o GLP. A estratégia de precificar os derivados do petróleo (gasolina, diesel, GLP, QAV1 etc.) ao preço do barril internacional, que sofre variações por conta da alteração diária de preço no mercado e do valor do dólar, faz com que os valores finais para o consumidor brasileiro não caiam, apesar de o valor do barril cair. A queda do valor do barril é amortecida pela alta do dólar.

O lucro como principal norte de uma empresa tira pequenas comunidades do acesso aos combustíveis. No sistema capitalista, é o lucro que demonstra a saúde financeira de uma empresa e garante sua existência sustentável, mas ele jamais será responsável e solidário com as condições de existência da maioria do povo. Basta chegar uma crise e o lucro das corporações privadas é colocado acima da vida.

Autor: Jurandir Calijorne