José Maria Rangel: “Se fosse fácil não era para nós” José Maria Rangel: “Se fosse fácil não era para nós”

Diversos, Notícias, Tribuna Livre | 5 de junho de 2020

José Maria Rangel é um petroleiro que se tornou sindicalista por ter percebido que a luta é necessária, e que dela devia fazer parte. Sentado na sala de espera do aeroporto do Farol de São Tomé, prestes a embarcar para trabalhar por 14 dias na P-23, uma plataforma da Bacia de Campos, Zé Maria pediu a palavra durante a fala de um representante da categoria. Falou o que pensava acerca da pauta naquele dia e a partir daí não parou mais. Suas falas e ações seguintes tiveram sempre como base o bom caráter de homem íntegro, alma terna e coração justo, que aliados à sua incrível capacidade visionária, mudaram para melhor o rumo do movimento sindical petroleiro.

Alvo de admiração unânime, tanto pelo seu comportamento quanto pela sua trajetória, sua história é marcada por grandes desafios. O ano de 1996 marca o início da jornada de Zé Maria como sindicalista ao integrar a diretoria eleita do Sindipetro Norte Fluminense, e em 2004 assume a coordenação geral do sindicato. Seguramente, foram sua garra e firmeza na Bacia de Campos ao conduzir as negociações e a luta, assim como toda a organização e mobilização, que o levaram a ser eleito representante da categoria no Conselho de Administração da Petrobras, em 2013. Uma missão que honrou e cumpriu de maneira integral todos os compromissos assumidos. Manteve seu firme posicionamento contra leilões de privatização e ergueu bem alto a bandeira das lutas contra a terceirização.

O segredo de suas vitórias e conquistas construídas passo a passo está na lealdade à tradição das lutas da categoria petroleira. Zé Maria se tornou o seu mais influente líder porque manteve a altivez das principais lutas travadas em defesa do patrimônio público e da soberania nacional. Foi o que fez na Federação Única dos Petroleiros, quando em 2014 foi escolhido para coordenar nacionalmente os 13 sindicatos filiados à FUP. Lutou pela manutenção dos direitos da categoria, esteve atento às renovações dos quadros nas eleições dos sindicatos e ainda abriu horizontes, ao mostrar que a luta constante pela democracia é também responsabilidade da categoria petroleira para com a sociedade.

Assim, conduziu a qualificação do debate em torno da defesa da Petrobras como empresa pública e de sua maior riqueza, o Pré-Sal. A luta pela manutenção da lei da Partilha levou meses de resistência em Brasília, uma briga para derrotar o PL 4567/16. Uma luta que os petroleiros iniciaram em 2015 e que foi marcada por uma série de atos e debates no Congresso Nacional, que foram de escrachos e manifestações no aeroporto e na Esplanada dos Ministérios a participações em audiências públicas e ocupações.

Em 2015, foi construída a pauta pelo Brasil, a greve nacional tornou especial a campanha reivindicatória, e foi Zé Maria quem mostrou o caminho da boa estrada, apoiado na força de seus representados. Como ele mesmo diz, “tivemos a sabedoria de gritar em alto e bom som que temos orgulho de ser petroleiros e petroleiras”. Foram momentos de muita luta, o jaleco laranja virou símbolo e objeto de desejo de todos os lutadores e lutadoras dos movimentos sociais que jamais abandonaram a FUP em suas batalhas; foi na Escola Nacional Florestan Fernandes, com a presença de Lula, que o uniforme de guerra foi lançado e é ele, que até hoje, impõe respeito aos que ainda tentam entregar as riquezas do povo brasileiro.

Mais uma vez em Brasília, verdadeiras batalhas foram travadas, os petroleiros desafiaram o Executivo, o Legislativo e o Judiciário com pautas pesadas, mas sempre de cabeça erguida.  Apesar da resistência, em 2016 a Câmara dos Deputados Federais consolidou o golpe iniciado com o impeachment e tirou da Petrobras a exclusividade na operação do Pré-Sal e a garantia de participação mínima de 30% nos consórcios.

Em 2017, a visão e a coragem de Zé Maria deram início à criação do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, que ganhou o nome de José Eduardo Dutra e hoje é referência em quase todas as discussões acerca da geopolítica do petróleo. Outras grandes conquistas solidificadas na gestão de Zé Maria foram a ocupação de espaço na gestão da FUP pelas mulheres petroleiras, assim como o direito ao trabalho seguro, e a Federação tornou-se referência nos debates sobre segurança no trabalho.

Em 2018, Zé Maria provou a sua extrema dedicação ao aceitar uma candidatura na tentativa de ampliar sua representatividade para a categoria petroleira, para toda a classe trabalhadora e movimentos sociais. Zé Maria disputou uma vaga na Câmara dos Deputados, a intenção era travar a luta contra as injustiças, as desigualdades e indiferenças por meio da defesa da soberania energética do país, em defesa das estatais a serviço do povo brasileiro.

Em 2019, é novamente a liderança de Zé Maria que se mostra importante para manter as conquistas do acordo coletivo dos petroleiros. Negociações duras num momento igualmente duro, em que se presencia um ataque contra a ideia de uma Petrobras para os brasileiros e um desmedido crescimento do projeto de destruição da empresa que, infelizmente, se acentuou agora, no início de 2020, apesar da histórica greve nacional de 20 dias da categoria petroleira, com a posterior hibernação da FAFEN PR, a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná, uma das poucas garantias de soberania alimentar para o Brasil.

Ainda há muito o que falar de José Maria Rangel, sempre com uma frase pronta a ganhar status de ditado ou a virar título de matéria jornalística, como alguns que gostam de citar: “Faça o bem sem olhar a quem” ou “Não deseje para os outros o que você não quer para você”; e outros que sempre arrancam sorrisos: “Antes só do que mal acompanhado”, “Calar é ouro; falar é prata”, “Não há pote de ouro no final do arco-íris” e ainda o seu predileto, “Se fosse fácil não era para nós”, que deixam claro sua presença de espírito e empatia.

Seus pleonasmos são descobertos quando fala de seu maior ídolo, o presidente Lula, ou ainda quando repete grande frase de Papa Francisco: “Nenhum trabalhador sem direito, nenhum camponês sem terra, nenhuma família sem casa“. Mas é em uma passagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, que Zé Maria encontrou um jeito de traduzir a vida: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Zé Maria segue para mais um desafio, será pré-candidato a uma vaga na Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes e leva de seus companheiros de luta mensagens de agradecimento e boas novas:

“O Zé Maria representa uma forma diferente de ver e fazer sindicalismo. Primeiro, pela sua persistência e por ser um dirigente incansável. Segundo porque tem uma sensibilidade como poucos, alternando momentos de ternura e firmeza. Sua vontade em aprender, se aperfeiçoar sem perder a relação com o chão de fábrica, também é notável. Acho essa a lição mais importante que fica não só para os dirigentes que virão, como para todos que um dia trabalharam com ele: é preciso dialogar, encontrar caminhos, mas sem perder as raízes e as convicções. Desejo a você, Zé, toda sorte nas suas novas empreitadas.”

Rodrigo Leão, pesquisador do INEEP

“O que mais admiro nestes anos todos de convívio com o Zé Maria é a sua lealdade aos seus ideais de justiça social e a sua responsabilidade com interesses da classe trabalhadora. ”

Breda, ex-coordenador do Sindipetro NF

“Com certeza Zé Maria combateu o bom combate e, como nos disse, ajudará na luta por um mundo melhor, mais justo e igualitário, em outras trincheiras; agora, a partir da cidade que traz em seu nome a força dos verdadeiros descobridores e donos do Brasil. Saiba que aprendemos muito contigo nesse período e isso vai nos ajudar a seguir em frente nessa luta, que é contínua. Pode contar conosco nesse novo projeto, Zé, que será de suma importância para as eleições de 2022 e para termos mandatos no Legislativo com os pés no chão que a classe trabalhadora pisa, para um dia termos hegemonia na sociedade”.

Deyvid Bacelar, Coordenador Geral da FUP

“Companheiro Zé Maria!

Foi um privilégio poder trabalhar ao teu lado, bem como ao de todos e todas, nesses seis anos. Uma jornada complicada, um caminho tortuoso e pedregoso, mas disposição de luta não faltou. Não importam as dificuldades, os tropeços, os equívocos, as dores, as mágoas ou as lágrimas. Foram seis anos intensos, em que o País viu crescer uma construção histórica, que não conseguiu encontrar o pedestal do “O petróleo é nosso!”, mas demonstrou a força da união de uma categoria.

Desafiamos o Executivo, o Legislativo e o Judiciário com uma pauta pesada e, fundamentalmente, nacionalista! Que desnudou o perfil entreguista da maioria dos políticos brasileiros! Fizemos e faremos história pelos nossos atos, por nossa organização, principalmente por termos grandes lideranças que garantiram permanência no caminho certo da história. Segues um novo caminho, um novo desafio, não menos difícil e nem menos complexo. Então, muito sucesso e conte com a gente. Um abraço, do tamanho do Rio Grande!”

Maia, Sindipetro RS

“Nos meus seis anos de sindicalismo, três anos fazendo parte desta direção, muito me honra e me orgulha que tenha sido nesse mesmo período sob sua coordenação. Certamente uma liderança que ensina e inspira. Certamente ainda travaremos muitas batalhas juntos, como me disse um dia. Obrigado por tudo até aqui. Que o destino ainda lhe reserve grandes voos para o bem de nós e do povo. Grande abraço, meu amigo!”

Alex, Sindipetro PR

Para nós que assumimos tarefas sindicais, alguns já com tarefa na federação, foi um período de desafio enorme. Agradeço enormemente a paciência e carinho que o Zé recebeu essa nova geração. Sua liderança pelo exemplo se tornou um momento de formação política. Muitas vezes uma frase sábia com a tratativa carinhosa conosco que não tínhamos a mesma bagagem, nos dava uma base sólida e coragem para seguir a luta. Seguir em frente nesse contexto político só é possível por estarmos suportados por ombros como do companheiro José Maria.

Finamori, Sindipetro MG

“Satisfação e grande aprendizado ter te apoiado e participado da batalhas e lutas, a certeza que estávamos corretos nas derrotas e a alegria da conquista com as vitórias!

Um orgulho era ao procurá-lo à frente e não o achar, ao olhar ao lado e o ver. Tínhamos nossa liderança ao nosso lado, assim foi seu exemplo de liderança! Siga para uma nova jornada de lutas, amigo e companheiro Zé Maria!”

Urpia, Sindipetro BA

“Zé, meu camarada, você sempre será uma referência de luta para os petroleiros e petroleiras. Foi uma honra estar ao seu lado em tantas batalhas. Boa sorte em suas próximas empreitadas. Conte conosco, sempre!”

Paulo Neves, Sindipetro AM

“Caro Zé Maria, em seu relato de despedida você deixa um legado de luta, sabedoria e muita habilidade em vários momentos, testemunhados por nós, sindicalistas, e que muito me ajudou na minha formação. Um forte abraço, sucesso!”

Lourenzon, Sindipetro PB

“Zé, você esqueceu de dizer que foi eleito no Nordeste, mais especificamente em Natal, não poderia deixar de citar. Obrigada pelas parcerias, pelos ensinamentos, pelas lutas! Sucesso nas muitas batalhas que temos à frente! Viva a luta! Viva a militância!”

Fafa, Sindipetro RN

“Zé, foi muito bom lutar ao seu lado, você é um exemplo, um grande companheiro. Te desejo muita saúde e curta sua vida com toda intensidade. Seguiremos firmes!”

Anacelie, Sindipetro PR

“Zé Maria, nem tenho palavras suficientes para agradecer todas as vezes que sua luta e exemplo me ajudaram a ter esperança para continuar. Parabéns pelo legado que deixa. São poucas as pessoas que conseguem, em tão pouco tempo, um currículo com tantas vitórias e uma lista de amigos e admiradores como você conseguiu. Com certeza sua missão é algo grande, e você tem sido valente para seguir e enfrentar o caminho para seu destino. Que Deus te abençoe sempre nessa jornada.”

Priscila, Sindipetro ES

Zé Maria é uma pessoa extremamente leal, justa e de um coração imenso, que sempre se preocupou com o lado humano, que se emociona e cativa a todos e todas, faz política por opção e ideologia, e por isso consegue ser objetivo nas suas falas e ações.

Vivemos vitórias e derrotas, mas sem dúvida fizemos a boa luta e não nos arrependemos de nossas escolhas. Estamos juntos, meu amigo! Mais lutas teremos!

Castellano, Sindiquímica PR

Zé Maria, a luta tem sido tão árdua que às vezes esquecemos tudo o que fizemos. Seu breve relato nos faz lembrar dessas difíceis lutas, mas em especial das bravas decisões que, tenho certeza, se estamos resistindo, é porque essas decisões foram tomadas e colocadas em prática. Boa luta na sua nova frente, e seguimos juntos!

Mirian, Sindipetro RS

Companheiro e amigo Zé Maria, lutar ao seu lado e com sua coordenação sempre nos mostrou que estamos do lado certo, e uma forma de lhe dizer obrigado por todo seu companheirismo e amizade é ter a certeza de que onde você estiver os trabalhadores e trabalhadoras estarão representados, conte com este amigo sempre, e sucesso.

Acácio, Sindipetro AM

Se Zé Maria tivesse revisado este texto, como fez com milhares nestes seis anos como coordenador geral da FUP, com certeza pediria para incluir mais este ditado: “A esperança é a última que morre.”

por Maria João Palma, jornalista da Federação Única dos Petroleiros

 

 

 

José Maria Rangel: “Se fosse fácil não era para nós”