Relatório aponta falha na gestão em acidente grave na Regap Relatório aponta falha na gestão em acidente grave na Regap

Diversos, Notícias, Tribuna Livre | 14 de dezembro de 2018

Falha de gestão. Assim é possível resumir as causas do acidente que deixou três trabalhadores da Refinaria Gabriel Passos (Regap) feridos em agosto deste ano. As vítimas foram atingidas por um jato de ácido sulfúrico 98% quando houve o rompimento de uma conexão de um Indicador Local de Pressão (PI) próximo ao local onde acompanhavam o teste de uma válvula do sistema. Eles sofreram queimaduras graves, sendo que um deles permanece afastado da Petrobrás e segue em tratamento médico.

Há pouco mais de dez dias dias, a diretoria do Sindipetro/MG recebeu o Relatório de Investigação e Análise de Anomalias, elaborado pela Comissão de Investigação do Acidente – formada por representantes da Petrobrás, da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa) da Regap e do Sindicato, representado pelo diretor Alas Castro.

O documento não deixa dúvidas quanto à responsabilidade pelo caso: a própria gestão da Petrobrás.

Entre as causas apontadas no relatório estão:

  1. falha na gestão da abrangência de vazamentos anteriores;
  2. falha na gestão de mudanças na instalação de tomada do PI que rompeu (falta de detalhamento do projeto e ausência de registro de alterações na instalação);
  3. falha na montagem da tomada do PI que rompeu, com uso de material inadequado (aço inox em vez de aço carbono) e conexão roscada (onde a recomendação seria encaixe e solda);
  4. falha no processo de comissionamento da unidade;

Segundo o técnico de inspeção e diretor de SMS da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Alexandro Guilherme Jorge, dentre essas falhas, um fator que chama a atenção são as notas ZRs para substituição das linhas que já apontavam para problemas. Provavelmente, essas notas ZRs foram motivadas pelos vazamentos recorrentes no sistema de ácido sulfúrico registrados a partir de 2009.

“Isso reforça que os problemas nesse sistema eram conhecidos e o acidente poderia ter sido evitado”, disse. O relatório cita pelo menos oito vazamentos em 2009, todos provocados por furos localizados. Na ocasião, a empresa responsável pelas obras de ampliação da Estação de Tratamento de Água (ETA) da U-47 – onde o acidente ocorreu – teria solucionado o problema. Porém, nos anos seguintes, ainda foram registrados outros cinco vazamentos no circuito.

De acordo com o coordenador da FUP, José Maria Rangel, o acidente na Regap trouxe grande preocupação, visto que o sistema já vinha dando sinais de que poderia acontecer algo grave. “Mas, a gestão da companhia e a gerência da unidade não se atentaram aos avisos. Isso custou esse acidente em que tivemos três trabalhadores feridos”, afirmou.

E no rastro desse acidente, ele lembrou ainda outros acidentes registrados em 2018 nas unidades da Petrobrás e diretamente associados à política de sucateamento da estatal, principalmente nas áreas do refino.

“Nós tivemos um acidente de altíssimo potencial na Refinaria de Paulínia (Replan) que, por questão de minutos, nós não teríamos ali uma grande tragédia. Tivemos um acidente recente da Refinaria Abreu e Lima (RNEST), com um incêndio na torre, e também um óbito na Bacia de Campos. Tudo isso é um reflexo da política de redução dos investimentos e o que a gente vê é que, quando a Petrobrás não investe, o que acontece são os acidentes. Essa é a nossa preocupação e, por isso, nós temos trabalhado insistentemente no sentido de discutir com a companhia uma nova política de saúde e segurança que possa preservar a vida dos trabalhadores. Então, a FUP e seus sindicatos vão continuar nessa batida porque nós temos o direito à vida”.

Causas do acidente e na utilidades

  1. Não tratamento adequado aos vazamentos registrados anteriormente no mesmo sistema (entre 2009 e 2018 foram registrados 5 vazamentos de ácido sulfúrico);
  2. Falha na checkvalve;
  3. Falta de detalhamento do projeto do PI que rompeu;
  4. Alterações na instalação de processo sem evidências de gestão de mudanças;
  5. Uso de duas ligas metálicas na mesma linha (aço inox e aço carbono);
  6. Uso de niple em aço inox (com maior taxa de corrosão);
  7. Uso de rosca onde deveria ser encaixe e solda;
  8. Falta de checklist de recebimento da unidade.

Relembre o caso

Em 6 de agosto de 2018, o operador Antenor Pessoa Cavalcante e dois técnicos de manutenção acompanhavam o teste de uma válvula do sistema de ácido sulfúrico 98% da U-47 quando o rompimento de uma conexão de um Indicador Local de Pressão (PI) próximo emitiu um jato de ácido que atingiu todos eles.

O operador sofreu queimaduras nas costas, peito e parte do rosto, além do braço e antebraço esquerdos. Ele também sofreu uma lesão reversível no olho direito, sendo socorrido para o Hospital Mater Dei, onde passou por algumas cirurgias e ficou internado por vários dias. Antenor já está há mais de 100 dias afastado da empresa para tratamento das queimaduras e recuperação.

Os outros dois trabalhadores – ambos da empresa SGS – sofreram queimaduras leves. Um deles foi atendido e liberado ainda na refinaria e o outro foi encaminhado a um hospital, mas teve alta no mesmo dia. Só no segundo semestre de 2018 foram dois acidentes graves na Regap. O mais recente ocorreu em novembro deste ano. Uma petroleira sofreu queimaduras nas pernas quando, ao retirar uma amostra de salmoura da dessalgadora em um recipiente de vidro, este teria soltado o fundo, derramando o líquido quente em suas pernas.

Relatório aponta falha na gestão em acidente grave na Regap