“Acabou o orgulho de ser petroleiro”

Terceirizado, há 25 anos dentro da Regap, denuncia “maquiagem” em acidentes

Trabalhador contratado por uma empreiteira que presta servi- ços para a Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim, relata, em entrevista ao Jornal O Petroleiro, a rotina de desvalorização e sucateamento na Petrobrás. Ele conta que já passou por várias empreiteiras contratadas pela empresa. Algumas faliram e ele diz ter perdido as esperanças de receber as indenizações trabalhistas. Segundo ele, o problema maior acontece com as empreiteiras que somem ou mudam de CNPJ sem cumprir seus compromissos com as trabalhadoras e trabalhadores. A história desse trabalhador, não identificado propositalmente, poderia ser a de qualquer um dos cerca de 99 mil terceirizados da Petrobrás, que são testemunhas do sucateamento da empresa aprofundado no último período.

Como é, para você, ser um terceirizado na Petrobrás?

Eu me sinto um resto. Dediquei 25 anos para ser o melhor profissional da minha área e o meu salário hoje não cobre as contas da minha casa. Eu já tentei o concurso da Petrobrás, mas não fui chamado. Já me senti um lixo. Como contratado, você aceita um salário menor ou pega estrada. Nós não temos valorização. Tem trabalhador ganhando R$ 1.600,00. Como pagar as contas? Na hora de fichar exigem mundos e fundos e na hora de pagar é essa miséria.

Quais os principais problemas você percebe na Regap/Petrobrás?

Depois que inventaram o cálculo de vida remanescente residual (adequação da NR 13) a parada da unidade em manutenção que era feita de dois em dois anos passou a ser de seis em seis anos. Isso é um crime. Antes, a unidade ficava até três meses parada, agora o serviço é feito em 18 dias. Antigamente, a gente trocava muito mais coisas. Hoje, só passa o pano, não há tempo para uma análise criteriosa. O pior é ter uma unidade caquética com mais de 50 anos, onde um equipamento fura e para sozinho, aumentando os riscos de acidentes. Já vi muitos acidentes. Colegas morreram ao meu lado e eu fiquei em estado de choque. Fico enjoado só de ver um tubo parecido com o do acidente que presenciei. Antes, eu até chorava. É muito pesado.

O que você vê acontecendo de mais absurdo?

Acontecem acidentes quase diariamente envolvendo as contratadas. Só que eles são “maquiados”. Por exemplo, a pessoa se corta e leva pontos, mas alegam que não foi acidente. Isso acontece em geral com os terceirizados e também com os concursados. Para os contratados, o pior é que qualquer bola fora gera demissão. Para as contratadas, “maquiar” os acidentes ajuda a melhorar os indicadores de segurança que contam na hora da renovação de contrato. Em uma semana, dos três acidentes que ocorreram, dois envolveram empreiteiras.

Como são as exigências de treinamentos dos terceirizados?

Quando a Petrobrás ministrava os cursos, eles eram mais confiáveis. Hoje, as empresas já têm que fornecer o empregado treinado. Você acha que eles vão investir para ofertar um curso bacana? A Petrobrás está deixando de ser a empresa que era e só pensa em reduzir custos. Percebi mudanças de 2015 para cá e com o governo Bolsonaro piorou mais ainda. A Livre negociação com os patrões precarizou as condições de trabalho. O percentual da hora extra diminuiu de 100% para 70%. Nem lanche algumas empresas oferecem mais. Não dão nada e o peão termina o horário de trabalho varado de fome e ainda tem que pegar um ônibus para chegar em casa.

Há diferenças de condições de trabalho entre as empreiteiras?

A média salarial de um caldeireiro é R$ 2.800,00 mais 30%. Há muita discrepância. Há acordos que não tem benefício nenhum, nem vale refeição. Há empreiteiras de fachada, conhecidas entre o pessoal como “gatinhas safadas”. São empresas contratadas que não têm patrimônio, mas fazem esquema no processo para pegar o contrato, depois somem com os primeiros faturamentos deixando os trabalhadores a ver navios. Hoje, a frustração é geral. Há muita desmotivação. É covardia demais. Acabou o orgulho de ser petroleiro. Se não aconteceu nada muito grave ainda é porque os mais velhos seguram a onda e alertam quando veem algo errado.

Precarização expõe terceirizados à riscos de acidentes

Baixos salários, pouco treinamento e alta rotatividade fazem parte da realidade de quem trabalha para a Petrobrás em empresas contratadas. Esses trabalhadores ficam mais expostos a acidentes com risco de morte. Os petroleiros terceirizados também sofrem com salários rebaixados, uma vez que faz parte da rotina serem demitidos por uma empresa e recontratados por outra com o salário menor. Para garantir o emprego, são obrigados a conviver com as flexibilizações permitidas pela reforma trabalhista. Estudos feitos, em 2018, pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o (Departamento Intersindical de Estudos Socioeconômicos (Dieese) comprovam que a remuneração dos terceirizados é 24,7% menor em relação ao trabalhador contratado diretamente pela empresa, os terceirizados trabalham 3 horas a mais na jornada semanal e estão mais expostos ao adoecimento e à morte numa proporção de 8/10.

“No que diz respeito à rotatividade, os terceirizados, muitas vezes, não tiram férias, e ‘trocam de crachás’ a cada ano, devido a uma realidade entre as empresas prestadoras de serviço e a Petrobrás, onde não raro, antes de completar um ano de serviços prestados, a empresa contratada abre falência, rompendo o seu contrato com o empregado terceirizado, mas sem pagar os direitos trabalhistas. Assim, outra empresa entra substituindo a anterior e contratando os mesmos trabalhadores, mas sem a responsabilidade de pagar os direitos trabalhistas, pois a outra empresa que a antecedeu simplesmente faliu”, cita a economista Eliana Paula da Silva, em sua monografia Terceirização na Petrobrás: uma visão a partir do Rio Grande do Norte, apresentada em 2021, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

O Sindipetro/MG denuncia, frequentemente, as empreiteiras que atrasam salários, demitem e dão calote nos trabalhadores, assim como as consequências do sucateamento na Regap com vistas à privatização.

“O sindicato luta para que os direitos dos petroleiros do quadro próprio e terceirizados sejam respeitados e que as condições de trabalho e segurança melhorem”, reforça o coordenador-geral do Sindipetro/MG, Alexandre Finamori.