Brasil vive escalada de ódio e fascismo Brasil vive escalada de ódio e fascismo

Diversos, Notícias, Tribuna Livre | 18 de maio de 2018

patofascistaAo se falar sobre fascismo, comumente se pensa em algo distante. Algo que se estuda nas aulas de história e que é associado a nomes como Mussolini, na Itália, ou Hitler, na Alemanha. Mas, o fascismo está muito mais próximos da sociedade brasileira do que se imagina.

Recentemente, o País tem registrado episódios de violências moral e física que, segundo especialistas, estão alicerçados em práticas típicas do movimento fascista. Segundo o professor de Direito Constitucional da UFMG e da PUC, José Luiz Quadros Magalhães, o fascismo surgiu nas décadas de 20 e 30 e consiste em movimento de teoria radical e de extrema direita que é violento, intolerante, irracional e preconceituoso.

Ainda segundo ele, algumas dessas características do fascismo estão cada vez mais presentes na sociedade atual. “Agora, nós temos uma reedição do fascismo baseado em um crescente movimento de intolerância, principalmente política e discriminatória. É um movimento que se apropria de uma indignação legítima da sociedade e direciona isso de modo a se criar um inimigo comum. No caso do Brasil, a indignação coletiva e bastante legítima é a corrupção, e o inimigo criado foi o PT”. No entanto, a expressão fascista presente hoje no Brasil se difere de experiências anteriores por não estar alicerçada sobre um partido político, como nos casos alemão e italiano.

“Não podemos desconsiderar que a origem do discurso fascista está presente em diversos grupos formadores de opinião, como o Movimento Brasil Livre (MBL) ou os movimentos de apoio a Bolsonaro. Há sim uma organização, ainda que não partidária, capaz de fazer a disputa pelo poder”, explicou o professor e membro do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos de MG, da Comissão da Verdade/MG e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Robson Sávio.

Recrudescimento da violência

Segundo Sávio, o Brasil sempre foi um País violento e repressor, especialmente contra movimentos sociais. “A elite nacional, associada ao Judiciário e ao Estado, se organiza para reprimir vozes dissonantes e essa violência repete um padrão que perpassa toda nossa história”. Ele acredita que o acontece agora é uma radicalização dessas posturas violentas.

“Junho de 2013 é um marco porque é onde se inicia toda uma preparação para o golpe que houve na sequência. Foi ali que as elites se despiram de todo e qualquer pudor que tinham até então e começaram a explicitar com ferocidade essa violência estrutural”.

Um levantamento do Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos (CBDDH) contabilizou 62 assassinatos e inúmeras denúncias de ameaças, atentados e intimidações contra lideranças e ativistas em 2017. Em 2016, esse número chegou a 66.
Já neste ano, o caso de maior expressão da tentativa de silenciamento foi o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco (PSOL). Marielle defendia causas sociais e carregava consigo a bandeira da periferia, dos negros, das mulheres e dos homossexuais na Câmara carioca.

“Além dela, tivemos os ataques à caravana do Lula e ao acampamento Marisa Letícia, em Curitiba (PR), que tiveram alguma repercussão na mídia, mas outros tantos casos que ocorrem todos os dias contra comunidades tradicionais como quilombolas, indígenas e sem-terra e que são sequer explicitados. Há sim uma tentativa de silenciamento de vozes que lutam por uma sociedade mais igualitária e uma justiça mais isonômica nesse País”, completou Sávio.

História

Junho de 2013 foi apenas um marco do aumento da intolerância política. Segundo o professor Quadros, o recrudescimento da violência contra os movimentos remonta à Constituição de 1988 – já que foi a partir do fim da ditadura militar e da publicação da Carta Magna, que o Brasil passou a reconhecer as diferenças.

“No final do século 20 e início do 21 foi um tempo de muitos desocultamentos no Brasil e no mundo. Até então, as pessoas viviam em um universo dividido entre certo e errado, homem e mulher, bem e mal. Com a redemocratização, descobrimos um País de 400 idiomas, de mais de 2 milhões quilombolas, de mais de um 1 milhão de indígenas, de vários gêneros e de várias formas de amar”.

Ainda segundo ele, isso incomodou a elite conservadora e branca e, a partir do momento em que o Brasil elege um governo popular que passa a trabalhar políticas de inclusão dessa diversidade até então marginalizada, essa elite começa a se organizar. “Passamos a ter negros na universidade, pobres viajando, frequentando restaurantes, comprando casa e carro e isso passa a incomodar muito quem tem poder econômico. Isso explica muito a reação conservadora que vemos agora”.

Papel da mídia e das redes

Conforme Quadros, o fascismo surge no financiado por grandes conglomerados econômicos. Hoje, não se pode dizer que ele não se fortalece pelo financiamento da elite, mas há um fator novo: a comunicação em redes.

O professor explica que as redes possibilitaram o anonimato, que permite às pessoas se expressarem sem o risco de punição ou responsabilização, dando voz a rascistas, machistas homofóbicos, etc.

A opinião é compartilhada por Robson Sávio. Ele acrescenta ainda que a vocalização de alguns setores associada à maior visibilidade acerca da pluralidade da sociedade – garantida pelas mídias alternativas – é que há uma radicalização dos discursos de ódio e um crescimento da violência no Brasil.

O que é fascismo?

Na história, o fascismo foi um regime representado por um governo autocrático e centralizado na figura de um ditador, onde os conceitos de nação e raça prevaleceram sobre os valores individuais. No dicionário Priberam, o fascismo é definido como “tendência para o excesso de autoritarismo ou para o controle ditatorial”.

O procurador do Estado Márcio Sotelo Felippe, em seu artigo “Golpe e Fascismo”, publicado na Carta Capital, explicou que, nos regimes fascistas, a violência do Estado e a violação de direitos têm apoio de massa. Ele explica que o regime fascista buscava um determinado “consenso”, com o objetivo de dominar pela captura da consciência de uma parte do povo para dirigi-la contra outra parte.

“Para tanto, era preciso desumanizar o diferente, visando transformar a sociedade em um organismo, de tal modo que o que estivesse fora de um determinado padrão, fosse social, econômico, político, étnico ou de conduta, deveria ser tratado como uma espécie de “doença” do meio social e portanto aniquilados ou completamente subjugados”, escreveu.

Na Alemanha nazista, o mal, a “doença social”, eram os comunistas, os judeus, os homossexuais, os ciganos, as pessoas com deficiência e qualquer indivíduo cujas convicções ou modo de ser representassem uma ameaça à ordem burguesa. Na sociedade ideal nazista só haveria um tipo étnico, uma convicção política, uma espécie de ser humano “purificado”, uma sexualidade e somente uma visão de mundo.

 

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