Editorial – Brasil: um país cheio de memórias inconvenientes Editorial – Brasil: um país cheio de memórias inconvenientes

Opinião | 18 de maio de 2018

Na última semana, fomos confrontados com uma notícia que revirou certas memórias inconvenientes da nossa história recente. Um documento confidencial da CIA (Serviço de Inteligência dos Estados Unidos) revelou que o ex-presidente Ernesto Geisel (1974-1979) autorizou a execução de militantes opositores do regime militar.

A informação desconstroi a imagem do general como militar moderado e bonzinho, conhecido por ter sido disposto a construir a tal “abertura lenta, gradual e segura” para um regime democrático.

Na mesma semana, “comemoramos” os 130 anos da abolição da escravidão. Apesar do marco formal, diante da assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel em 1988, a data possibilita que questionemos: a escravidão realmente acabou para o povo negro desse país? Nos últimos 130 anos, essa parcela significativa da sociedade brasileira conviveu e resistiu a uma estrutura social que reproduziu os mesmos pilares do sistema escravocrata: desigualdade, racismo, silenciamento, opressão e violência.

Discutir e evidenciar tais verdades inconvenientes é combater um histórico esforço das elites para que se apagasse a memória da escravidão, da ditadura e de toda e qualquer exploração e violência contra parcelas da nossa sociedade.

No final das contas, refletir sobre fases tão obscuras do nosso processo histórico é também lutar contra o retrocesso, seja na forma do racismo, da LGBTfobia, do colonialismo e do fascismo. Em tempos de negação da política e da expansão de um discurso de ódio, parece ainda mais urgente seguirmos inconvenientes.

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