Petrobras fecha primeiro semestre com forte lucro mesmo em cenário de queda dos preços internacionais Petrobras fecha primeiro semestre com forte lucro mesmo em cenário de queda dos preços internacionais

Notícias, Tribuna Livre | 18 de agosto de 2025
A Petrobras registrou lucro líquido de R$ 26,6 bilhões e distribuiu R$ 8,6 bilhões a seus acionistas no segundo trimestre de 2025 (2T25). No primeiro semestre de 2025 (1S25), a companhia acumulou resultado positivo de R$ 61,8 bilhões, valor 193% superior ao registrado no mesmo semestre do ano anterior (R$ 21,0 bilhões), e ampliou em 31% seus investimentos. Nesse cenário, a companhia já remunerou em R$ 20,3 bilhões seus acionistas no primeiro semestre, o equivalente a 32,9% do lucro líquido apurado no período.

Por Mahatma dos Santos/INEEP

O segundo resultado trimestral positivo consecutivo não só reverte o prejuízo no quarto trimestre de 2024 (R$ -17,0 bilhões), como é resultado da expansão dos investimentos operacionais realizados no ano passado, que viabilizaram a entrada em operação de 25 novos produtores no 1S25.

O resultado positivo no 1S25, mesmo em um contexto adverso de queda de 14,7% no preço médio do brent, quando comparado ao 1S24, resultou, principalmente, do ponto de vista operacional, da expansão de 3,7% da capacidade produtiva de óleo e gás e manutenção de um elevado fator de utilização do parque de refino da estatal.

Da perspectiva comercial, a elevação de 1,9% do volume de vendas de derivados no mercado interno e expansão de 2,5% nos preços básicos dos derivados no mercado doméstico também foram fatores determinantes. O resultado positivo com as variações cambiais e monetárias líquidas de R$ 30,3 bilhões no 1S25, ante resultado negativo de R$ 23,1 bilhões no 1S24, contribui para redução do impacto da elevação de 4,5% das despesas operacionais e manutenção de um resultado financeiro positivo.

No primeiro semestre de 2025, a companhia já acumula lucro líquido 1,7 vezes maior do que o observado em todo o ano de 2024 (R$ 36,7 bilhões), reforçando sua capacidade de geração de valor mesmo em um cenário de incertezas e rebaixamento do preço do petróleo no mercado global.

O grande desafio estratégico da Petrobras segue na distribuição equitativa do valor gerado entre todos seus grupos de interesse – Estado, agentes privados e o interesse público. A reversão de uma trajetória de distribuição de megadividendos e sistemática redução dos investimentos deve avançar e ser o compromisso da maior empresa brasileira.

No período recente a Petrobras foi transformada em uma máquina de remuneração de acionistas. Entre 1T18 e o 2T25, a estatal distribuiu R$ 507,3 bilhões em dividendos, valor superior ao seu valor de mercado atual de R$ 414,0 bilhões e equivalente a 85,6% de todo seu lucro acumulado no período (R$ 592,5 bilhões). Por outro lado, no recorte analisado, os investimentos totalizaram R$ 422,7 bilhões, o equivalente a apenas 71,4% da riqueza gerada e inferior em 16,7% aos dividendos pagos no período.

Elementos que reforçam que o público-alvo da companhia segue sendo os acionistas e seus interesses de curto prazo, inclusive a União, acionista majoritário e que segue pressionado por políticas de austeridade fiscal.

Se entre 2018 e 2022, a companhia, por um lado, ficou marcada por uma redução sistemática dos investimentos e pagamento de megadividendos, a partir de 2023, observamos uma recuperação do volume de investimentos e redução no patamar de distribuição de dividendos, ainda altos para os patamares históricos da companhia.

Nas gestões sob o governo Bolsonaro, os dividendos foram recordes e atingiram um total de R$ 332,8 bilhões, cerca de 97,0% do resultado líquido produzido pela companhia no período. E mesmo com o boom nos preços internacionais do petróleo no biênio 2021 e 2022, os investimentos totalizaram apenas R$ 177,2 bilhões, cerca de 51,7% de todo lucro líquido.

Na gestão de Jean Paul Prates, entre o 1T23 e 1T24, a companhia distribuiu na forma de dividendos o equivalente a 57,3% do seu lucro líquido (R$ 85,0 bilhões) e ainda investiu pouco, o equivalente a 52,2% do resultado produzido pela companhia (R$ 77,4 bilhões). Uma redução significativa do patamar de dividendos pagos, mas com uma retomada lenta dos investimentos.

A atual gestão ampliou os investimentos, em especial no segundo semestre de 2024, mas manteve uma política robusta de pagamento de dividendos, em acordo com expectativa de seus acionistas. Entre 2T24 e 2T25, a Petrobras investiu R$ 118,7 bilhões, equivalente a 158,8% do seu lucro líquido no período e remunerou em R$ 82,7 bilhões seus acionistas, valor equivalente a 110,7% do resultado líquido apurado (R$ 74,17 bilhão), um recorde.

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Em síntese, a trajetória recente de produção e distribuição da riqueza gerada pela Petrobras ilustram a resiliência operacional e capacidade de geração de caixa da estatal, mas também jogam luz sobre a presente disputa entre os interesses de curto prazo de seus acionistas e as necessidades de longo prazo do setor energético nacional.

O plano de negócios da Petrobras deve se orientar pela busca sistemática por segurança energética, através de novos investimentos exploratórios e na expansão da capacidade nacional de refino, além de avançar em direção aos segmentos petroquímico e de gás e energias de baixo carbono, cujos investimentos caíram 39,5% no 1S25, em comparação ao 1S24.

A anunciada volta ao segmento de distribuição de GLP é um esforço essencial para recuperar o caráter integrado da companhia e transformá-la em um instrumento de política pública, contudo, é preciso ir além e avançar na reestatização de ativos estratégicos vendidos em gestões anteriores.

 


 

Mahatma Ramos é diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (INEEP). Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social e Sustentável da Presidência da República (CDESS). Doutorando em Sociologia no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGSA-UFRJ) e pesquisador do núcleo de pesquisa Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente (DTA-UFRJ).