Captura do Estado? A interface público-privada na gestão Zema, por Luís Nassif Captura do Estado? A interface público-privada na gestão Zema, por Luís Nassif

Opinião, Tribuna Livre | 30 de setembro de 2025

Denúncias e investigações levantam questões sobre a relação entre a gestão pública e os interesses privados.

Por Luis Nassif /GGN

O governo de Romeu Zema, em Minas Gerais, tem sido alvo de uma série de denúncias e investigações que levantam questões sobre a relação entre a gestão pública e os interesses privados. Os principais pontos de controvérsia e os escândalos recentes, detalhados no seu panorama, concentram-se em corrupção na área de mineração, gestão de recursos públicos (Fundeb/FEM) e privatização de estatais (Cemig).

Escândalos e Investigações na Gestão Zema

1. Operação Rejeito e Corrupção na Mineração

Operação Rejeito, deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2025, expôs um esquema de corrupção bilionário focado na concessão de licenças ambientais fraudulentas para mineração em áreas protegidas.

  • Envolvimento de Ex-Aliados: Várias figuras ligadas ao governo foram citadas ou presas:
    • Rodrigo Gonçalves Franco (ex-presidente da Feam).
    • João Paulo Martins (presidente do Iepha-MG), ambos exonerados.
    • João Alberto Paixão Lages (ex-deputado) e Gilberto Henrique Horta de Carvalho (lobista), apontados como articuladores políticos.
    • Helder Adriano de Freitas (diretor operacional).
  • Facilitação Governamental: A investigação apontou que decretos assinados por Zema teriam facilitado o licenciamento ambiental. Uma dessas medidas, que permitia empresas realizarem consultas prévias a comunidades tradicionais, foi considerada inconstitucional e suspensa pelo STF. O esquema teria potencial para gerar até R$ 18 bilhões em lucros.

2. Uso de Recursos Públicos (Fundeb e FEM)

Houve acusações de desvio de finalidade na aplicação de fundos públicos:

  • Fundo de Erradicação da Miséria (FEM): O governo foi acusado de usar R$ 88 milhões do FEM para pagar abonos, gratificações e diárias a colaboradores, o que foi denunciado como um desvio do objetivo original do fundo.
  • Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica): O governo vetou o rateio das sobras do Fundeb entre os profissionais da educação, alegando que já havia atingido o limite de 70% de gastos com pessoal. Entidades educacionais e parlamentares de oposição contestam a justificativa, pedindo mais transparência na gestão dos recursos.

3. CPI da Cemig e Privatização

A CPI da Cemig investigou a estatal e levantou suspeitas sobre contratações sem licitaçãoaparelhamento político e uma possível estratégia de desvalorização da empresa para facilitar sua privatização.

  • Recomendações de Indiciamento: O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de 17 pessoas e 8 empresas, incluindo o presidente da Cemig, Reynaldo Passanezi Filho, por crimes como peculato e corrupção passiva.
  • Arquivamento pelo MP: Em agosto de 2023, o Ministério Público de Minas Gerais arquivou o inquérito, alegando falta de justa causa e ausência de indícios de lesão ao patrimônio público. A decisão foi vista pela oposição como uma “blindagem política”.

4. Incentivos Fiscais para Locadoras

O governo Zema concedeu benefícios fiscais da ordem de R$ 4,7 bilhões para locadoras de automóveis.

  • IPVA de 1%: Locadoras gozam de um IPVA de apenas 1%, enquanto o imposto é de 4% para os demais usuários.
  • Perdas Milionárias: O SInfazfisco constatou que apenas uma grande locadora teria tido uma isenção de IPVA de R$ 516 milhões na compra de novos veículos em 2022, destacando que o setor beneficiado tem um impacto relativamente baixo na economia.

Conclusão

O conjunto das denúncias sugere uma gestão que prioriza a desburocratização e a flexibilização regulatória, o que  cria um ambiente propício para a captura do Estado por interesses privados. As exonerações de figuras-chave, os decretos questionáveis e o polêmico arquivamento da CPI da Cemig alimentam o debate sobre a transparência e a fiscalização na administração pública mineira sob Zema.