Reorganização geopolítica e disputa pelo petróleo são temas da segunda mesa do 20º Confup Reorganização geopolítica e disputa pelo petróleo são temas da segunda mesa do 20º Confup

Notícias, Tribuna Livre | 21 de julho de 2026

Monica Bruckmann, professora da UFRJ, e Lucas Valladares, professor da UFBA, mostram como rotas comerciais e caminhos do petróleo instigam iniciativas imperialistas dos EUA

 

[Por Raquel Lima, da comunicação do Sindipetro SJC]

A segunda mesa do XX CONFUP (Congresso Nacional da Federação Única dos Petroleiros), que acontece em Salvador até o dia 24/07, debateu a importância do petróleo e suas rotas comerciais em guerras e ofensivas imperialistas dos EUA ao redor do mundo.

O debate, na tarde desta terça-feira (21/07), contou com Monica Bruckmann, professora do Departamento de Ciência Política e do Programa de Pós-Graduação de História Comparada da UFRJ, e Lucas Valladares, professor da Faculdade de Economia da UFBA e Coordenador Técnico no Centro de Economia Política do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (CEPPETRO/NEC-UFBA).

Um dos pilares do debate foi o papel da soberania energética nacional e como construí-la através de um projeto político, que vise a valorização dos recursos do País em prol do desenvolvimento socioeconômico e produtivo e a autonomia do Brasil.

China e a nova rota da seda

Monica apresentou mapas globais que mostram um deslocamento do poder geopolítico entre 1970 e 2020. No primeiro, há uma maior capacidade de produção entre América e Europa, inclusive com os maiores portos do mundo (Nova Iorque, Califórnia e Roterdã) a um mundo, que em 2020, tem esse ponto central deslocado para a chamada “Indo-Pacífico”, que agora abriga também os maiores portos do mundo (Xangai e Singapura).

“Não é apenas uma reorganização do comércio. E, aqui, vale lembrar que 80% do comércio mundial se dá por via marítima, mas também uma reorganização de pontos essenciais de desenvolvimento, investimentos e importância global, o que força os EUA a reagir e também deslocar o seu principal inimigo estratégico, que passa a ser a China”.

Foto: Marcelo Aguilar/FUP

A professora ressaltou a construção da “nova rota da seda”, iniciada em 2013, criando um novo corredor de países aliados, de Beijing, atravessando a Ásia central, chegando à Europa. Quando emerge, ela conta com cerca de 20 países. Atualmente, são 148 países. “A China avança na reconstrução mundial e reposiciona a Ásia, como espaço de interação política, econômica e tecnológica”, completa.

Ela apresentou também pontos estratégicos comerciais e de transporte de petróleo, como o estreito de Ormuz – foco da guerra contra o Irã -, e destacou a questão portuária no centro estratégico dos conflitos. “Os portos, além de serem pontos de distribuição, são pontos de desenvolvimento populacional e motivam o processo produtivo das cidades de onde estão”, completou.

Expandindo a outras partes do planeta, ela ressaltou a tomada, pelo governo Trump, do canal do Panamá, e assim, reafirmou que as rotas marítimas e portos são regiões altamente vulneráveis e “alvos” do imperialismo dos EUA, visando o controle da energia global e dos minerais estratégicos.

Recursos naturais para o desenvolvimento

Para ela, um caminho promissor é o do continente africano que, recuperando uma visão “pan africana”, deu andamento às negociações coletivas, não por país, mas sim para o continente, na construção de um fundo de investimento; obtenção de recursos para infraestrutura e políticas industriais; e empréstimos pagos com recursos naturais.

“Este desenvolvimento do território africano está ganhando estrutura devido a aliança com a China e, justamente, esta “visão continental” na mesa de negociação. É o oposto do que seguimos fazendo na América Latina, na qual nos últimos anos destruiu-se mecanismos continentais para negociações comerciais”, explicou.

Segundo ela, é preciso deixar de pensar os recursos naturais como commodities e críticos, e, sim, como base para industrialização, desenvolvimento, consumo local e autonomia dos países.

Disputa pelo petróleo iraniano e ofensiva na Venezuela

Lucas Valladares, professor da Faculdade de Economia da UFBA e Coordenador Técnico no CEPPETRO/NEC-UFBA (Centro de Economia Política do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) demonstrou em uma linha do tempo de como o petróleo iraniano passou do controle estatal ao do capital estrangeiro e a escalada que a disputa enfrenta desde os anos 80.

Foto: Marcelo Aguilar/FUP

“Republicanos e democratas, no campo da política internacional, pensam o imperialismo muito parecido, de dominação dos recursos naturais e territórios de importância geopolítica via poder militar”, explicou.

Em uma recente linha do tempo da guerra contra o Irã, de fevereiro a julho deste ano, entre fechamento do estreito de Ormuz, campanhas aéreas norte-americanas, pedágio do estreito, bloqueio dos portos iranianos e cessar-fogos maus sucedidos, o que se conclui é que é um conflito longe do fim e principalmente sem os objetivos que os EUA almejavam serem conquistados. E os custos já são altos.

Lucas explica que o último orçamento do Departamento de Defesa dos EUA estourou em cerca de 44%, levando o presidente Trump a colocar em cheque o investimento do Estado em creches e programas de saúde.

Deslocando geograficamente a mesma disputa por petróleo, o professor explicou o caso da Venezuela, que desde o sequestro do presidente Nicolás Maduro, vive sob a promessa imperialista norte-americana de “comandar o país até uma transição”. Tom que se repete em diversas invasões e guerras estadunidenses.

O professor ainda explicou porque as consequências da guerra não foram ainda piores na alta de preços do petróleo, devido a quatro motivos: excedente global prévio de petróleo (cerca de 400 milhões de barris foram liberados após o fechamento do estreito de Ormuz); oleodutos alternativos; redução da demanda por parte da China  (que importava para estocagem) e a eletrificação chinesa (com o avanço dos carros elétricos).

Em sua conclusão, ele alerta que ter o petróleo no controle de uma empresa estatal é essencial, mas não garante o controle do excedente produtivo à classe trabalhadora. “Como é que a gente vai ter soberania energética sem uma estatal? Não tem como, mas não há garantia da luta estar vencida. A única certeza é que tem luta de classes: os trabalhadores contra o capital”, define. “A pergunta central que eu deixo aqui é: quem controla o excedente que a Petrobrás produz? Vai ser os trabalhadores ou vai ser o capital internacional? Restaurar o mercado energético exige participação institucional na formulação, deliberação e implementação de política energética  e esse é o papel do sindicato”, finalizou.

O debate do Brasil Soberano se reafirma como tema central não só pela defesa da nossa democracia e direitos da categoria petroleira, mas como parte essencial do desenvolvimento do País, autonomia energética e recursos para a transição energética justa.

A programação do XX CONFUP segue até sexta-feira (24/07) com transmissão ao vivo pelo Youtube da FUP.